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Direitos Autorais e o "ParabĂ©ns para vocĂȘ" - curiosidades

  • Imprensa
  • 7 de jul. de 2023
  • 3 min de leitura

Ilustração por BLF. Escrito por Raul Ruffo.


O ano era 1893. Grover Cleveland reassumia a PresidĂȘncia dos Estados Unidos, tornando-se o primeiro presidente norte-americano a ser reeleito nĂŁo consecutivamente.


Do outro lado do mundo, a Nova ZelĂąndia se tornava o primeiro paĂ­s a conceder o direito de voto Ă s mulheres e em Paris, a serpentina era usada pela primeira vez num carnaval.


Enquanto isso, Eduard Munch, na Noruega, terminava de pintar uma das obras de arte mais importantes do mundo: “O grito”.


Mas nenhum desses acontecimentos marcariam tanto a história da humanidade, como o que se passava numa sala de educação infantil na cidade de Louisville, nos Estados Unidos.

Duas irmãs professoras, Mildred J. Hill e Paty Hill, queriam deixar a chegada dos alunos na escola mais acolhedora e como Mildred era pianista, por que não escrever uma canção?


No final do sĂ©culo XIX a mĂșsica começava a ser usada como ferramenta pedagĂłgica para ensinar as crianças. Mildred e Paty escreveram entĂŁo a canção “Good Morning To All”, em portuguĂȘs, “Bom dia a todos”.


Enquanto as crianças entravam, elas cantavam:


“Good morning to you Good morning to you Good morning dear children Good morning to all”


Pareceu familiar? Pois Ă©. A melodia usada nessa mĂșsica, mais tarde se tornaria a melodia de “Happy Birthday To You” ou “ParabĂ©ns a vocĂȘ” para nĂłs, brazucas.


As irmãs registraram a composição, que começou a fazer sucesso pelas cidades do estado americano de Kentucky e passou a ser a trilha sonora oficial para recepcionar milhares de crianças pelos Estados Unidos.


30 anos depois, como acontece com todo bom folclore, a mĂșsica surgiu modificada num livro publicado por Robert Coleman, chamado “Celebration Songs”.


A publicação trazia cançÔes para o jardim de infĂąncia e a composição de Mildred e Paty estava lĂĄ, com o nome de “Happy Birthday To You”. Em algum momento nesses 30 anos, alguĂ©m estava num aniversĂĄrio e provavelmente de improviso, numa faĂ­sca mental, soltou um “Happy Birthday” no lugar de “Good Morning” e a galera deve ter se olhado com uma cara de “nĂŁo Ă© assim” misturado com “uĂ©, ficou bom isso!” e a partir daĂ­ a canção viralizou na lentidĂŁo do sĂ©culo XX.


VersĂŁo brasileira “Herbert Richers” dos parabĂ©ns

Tudo que o brasileiro pega ele melhora. Aqui Ă© a terra do sushi com bacon e da pizza de açaĂ­, respeita. Com o “Happy Birthday” nĂŁo seria diferente.


A mĂșsica chegou por aqui no final da dĂ©cada de 1930 e em 1942, o compositor e radialista Almirante, organizou na histĂłrica RĂĄdio Tupi, no Rio de Janeiro, um concurso para escolher a melhor versĂŁo brasileira para “Happy Birthday To You”.


Entre 5 mil participantes, uma paulista de Pindamonhangaba, farmacĂȘutica, chamada Bertha Homem de Mello, conquistou o jĂșri formado por imortais da Academia Brasileira de Letras e entrou pra histĂłria do Brasil.


Enquanto quase todas as 5 mil letras seguiram a mesma ideia da americana, que repetia sempre a primeira frase, Bertha criou uma frase diferente pra cada verso: “ParabĂ©ns a vocĂȘ Nesta data querida Muitas Felicidades Muitos anos de vida”


Essa estrofe nasceu pra essa mĂșsica! Os americanos deveriam importar essa versĂŁo e assumir que a brasileira ficou muito mais completa, contemplando tudo o que a gente deseja pra alguĂ©m que faz aniversĂĄrio.


A versĂŁo brasileira da cantiga, hĂĄ dĂ©cadas permanece da lista das mĂșsicas mais tocas do paĂ­s, segundo o Ecad. O valor de direitos autorais que vai pra famĂ­lia de Bertha o Ecad nĂŁo revela, mas, tivemos acesso a como sĂŁo divididos os royalties de “ParabĂ©ns a vocĂȘ” no Brasil:


41,67% para a FundacĂŁo Hill, 41,67% para a Warner Chappel e 16,6% para a famĂ­lia de Bertha Mello. Pela quantidade de tempo que essa mĂșsica permanece entre as mais tocadas, podemos afirmar com tranquilidade que Ă© a mĂșsica que mais ganha dinheiro no Brasil.

Impasse judicial

Nos estados unidos, “Happy Birthday” faturava atĂ© 2015, 2 milhĂ”es de dĂłlares por ano.

A treta começou porque quando Robert Coleman publicou o livro com a versĂŁo atualizada da letra, ele nĂŁo deu crĂ©dito as irmĂŁs Hill. Pouco tempo depois da publicação do livro, a mĂșsica jĂĄ aparecia em filmes, musicais da Broadway e jĂĄ começava a se espalhar pelo mundo.


Como nĂŁo havia registro de autoria no livro, pensaram que a mĂșsica fosse de domĂ­nio pĂșblico, mas, em 1933, a Jessica Hill, irmĂŁ mais nova de Patty e Mildred, se ligou e entrou com uma ação pelos direitos autorais.


Conseguiu provar na justiça que a mĂșsica era das irmĂŁs, mas como a editora Clayton F. Summy Co. havia publicado a canção pela primeira vez, teve que dividir 50/50 os direitos autorais com ela.

Mais tarde, essa editora foi comprada pela Warner/Chappell.


Em 2016, a justiça dos EUA decidiu que a canção Ă© de domĂ­nio pĂșblico e ainda determinou que a Warner/Chappell devolvesse 14 milhĂ”es de dĂłlares para as pessoas e empresas que tinham comprado a licença para a execução da mĂșsica nesse perĂ­odo.


A decisão da justiça dos EUA não afeta a cobrança dos direitos no Brasil.

 
 
 

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